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15/10/2015
Saúde: um olhar no futuro e reformas no presente

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Por Josier Marques Vilar*

Foi olhando o passado e discutindo o presente que, durante o caos do pós-guerra, as autoridades públicas da Grã-Bretanha montaram, em 1948, o Serviço Nacional de Saúde Inglês (NHS), equivalente ao nosso SUS, que se transformou em um dos sistemas mais admirados em todo o mundo e orgulho da população britânica, que, inclusive, o homenageou na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres. Foi pensando nesse exemplo e no desastroso e indesejável momento de caos e crise que estamos vivendo na política, na ética e na economia em nosso país, que deveríamos sinceramente pensar o quanto perdemos tempo jogando fora as oportunidades que tivemos de reformar os modelos equivocados que construímos ao longo dos últimos anos. Se a crise e o caos são um desastre para todos, em todos os setores da economia e da vida cotidiana dos cidadãos, temos então na saúde que focar nossas ações nas reformas que precisamos fazer.

Quando Willian Beveridge, economista e reformista britânico, declarou que deveriam ser erradicados da Grã-Bretanha, durante os críticos anos do pós-guerra, os “5 gigantes do mal”, assim chamando a carência, as doenças, a miséria, a ignorância e a preguiça, esse foi o momento em que o então caótico sistema inglês de saúde foi redesenhado para chegar ao nível de excelência que possui hoje.

Da mesma forma que os britânicos, temos de olhar para trás e aprender com nossos erros, resolvendo o gigantesco problema sanitário atual. O que não podemos é fugir da realidade de nossos dias, tentando confortavelmente discutir o futuro da saúde brasileira, quando temos um passado que nos condena e uma atualidade que nos envergonha.

Temos de usar a criatividade, a inovação e a determinação para promover renovações profundas na governança e na gestão da saúde brasileira, redefinindo os papéis do Estado e do setor privado. Não devemos resistir a pensar um novo formato, apenas pelo fato de termos receio do novo. Deve ficar o estado brasileiro responsável pelo financiamento e regulação, deixando com a iniciativa privada a gestão e a prestação de serviços? Talvez seja esse o papel do estado brasileiro: regular o setor, criando indicadores de desempenho, cobrando esses resultados por meio de um contrato de gestão com o setor privado, e financiando a atenção à saúde da população brasileira em todos os níveis.

Talvez o estado brasileiro devesse se afastar da gestão e da prestação de serviços, cujo papel tem sido muito mal avaliado pelos brasileiros. De acordo com as recentes pesquisas de opinião, mais de 60% da população assistida considera o atendimento realizado pelo SUS ruim ou péssimo.

Essa vergonhosa avaliação talvez se deva ao fato de que nunca foi da natureza do Ministério da Saúde fazer a gestão da sua rede assistencial. É lá, na rede assistencial, na marcação de exames, no agendamento de procedimentos e cirurgias, na má qualidade do atendimento profissional que reside o mal-estar e a justa decepção da população brasileira. O problema é que os políticos que já passaram pelo Ministério da Saúde, e mesmo o seu quadro técnico, devem conhecer muito de prevenção de doenças, promoção de saúde, planejamento de ações sanitárias e imunização populacional, mas de gestão de serviços assistenciais aparentemente nada ou pouco conhecem.

Muito provavelmente, a maioria dos ministros que por lá passaram e os seus principais auxiliares jamais gerenciaram uma unidade assistencial de saúde, seja ela pública ou privada. Talvez fosse melhor se o Ministério da Saúde ficasse com a governança e deixasse a gestão para os que tenham mais habilidades e competências para fazê-lo.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais o Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido injustamente crucificado sem jamais ter sido efetivamente implantado. O fato é que não existe integração do público com o privado, e nem sequer da esfera federal com a municipal ou estadual. E, ainda assim, insistem em chamar de sistema uma coisa que não tem qualquer integração ou trabalho sistemático que racionalize e otimize sua capacidade instalada, fidelize os seus usuários e seja focado em resultados. Essa falta de integração e de foco em resultados vale para o público e para o privado. Gasta-se em função disso, mal e redundantemente o pouco dinheiro disponível em todos os níveis da atenção.

Quase não investimos em melhorar e medir os processos operacionais e investimos menos ainda na qualificação e capacitação dos profissionais de saúde de forma sistemática, o que vale para o público e privado. Com gestão ineficiente e pessoas mal capacitadas não chegaremos a lugar algum em termos de qualidade assistencial. Planejar o futuro sem resolver os problemas do presente frustram a população e desperdiçam os já limitados recursos que dispomos, em ambos os setores.

O que se espera de um gestor, quando defronta-se com uma crise, é um imediato repensar e, quem sabe, um reposicionamento estratégico de sua organização. No SUS, não. Tudo continua sendo feito da mesma ineficiente e ineficaz maneira e as bandeiras corporativas continuam sendo as mesmas do passado.

O grande problema é que o espírito corporativista faz com que nosso cérebro reaja a qualquer ideia nova da mesma forma que nosso organismo reage a uma proteína estranha: rejeita-a.

Este é o nosso grande desafio. Como fazer com que as lideranças políticas da saúde se convençam que temos de reformar o modelo e implantar alguma coisa diferente do fizemos até agora?

Não podemos continuar agindo de forma perdulária e vingativa com os poucos recursos que dispomos. Estamos em um ambiente de alto risco. Custos crescentes, envelhecimento populacional, incorporação descontrolada de novas tecnologias, aumento das doenças crônicas e falta de investimentos que nos levam aceleradamente para a insustentabilidade.

Se não ocorrer um esforço coletivo de melhoria, ilhas de excelência também não sobreviverão.

A hora é agora. 

Josier Marques Vilar
Presidente do Conselho Empresarial de Medicina e Saúde da ACRio
Vice-Presidente do Sindhrio
Diretor Executivo do Instituto Berkeley - Treinamento e Capacitação em Saúde

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