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08/09/2015
Dilemas, Paradoxos e Desafios da Saúde Brasileira

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Por Josier Marques Vilar*

O maior dilema que a saúde brasileira viverá nos próximos anos está relacionado ao envelhecimento da população e ao custeio da assistência médica dessas pessoas, que naturalmente utilizam mais serviços de saúde do que os jovens.

Este também é um grande paradoxo que vivemos: adoramos a vida e perseguimos a longevidade,  mas detestamos as despesas que os velhos ocasionam.

Em artigo recente publicado no blog infomoney, Bruno Sobral propõe a discussão de uma poupança específica para custear as despesas com saúde no setor suplementar durante o envelhecimento.

Embora a discussão seja necessária e oportuna, é sempre bom relembrar que os aposentados têm seu valor salarial reduzido drasticamente quando se afastam do trabalho e, mais ainda, geralmente são as empresas que os empregam quem  custeiam integralmente seus planos de saúde durante sua vida ativa de trabalho.

Esse talvez seja um grande desafio da proposta em questão: criar uma cultura de poupança individual para financiar o custeio das despesas médicas durante o envelhecimento para os possuidores de planos de saúde.

Obviamente, o ideal seria termos um sistema de saúde eficiente e que funcionasse totalmente custeado pelo Estado. Isto não acontece. Fizemos a opção pelo sistema bipartite, oferecendo planos de saúde privados para substituir a ineficiência do setor público. O problema é que, com um envelhecimento populacional jamais visto e uma imensa e acelerada incorporação tecnológica, a conta não fecha. As empresas não suportam mais os custos crescentes que têm de pagar.

Agora não tem mais volta e temos que encontrar uma solução que dê sustentabilidade ao sistema. O ideal teria sido, lá atrás, o Estado brasileiro ter feito essa poupança obrigatória para o sistema de saúde no dia em que qualquer brasileirinho nascesse, para que todos pudessem ter garantida uma existência segura e serena até o final de sua vida. Entretanto, não foi feito.

O que fizemos foi empurrar a situação com a barriga, buscando soluções que acabaram gerando mais conflitos que harmonia. As soluções não nascerão de forma espontânea e, por isso mesmo, a sugestão de Bruno Sobral é muito bem vinda.

Um outro tema que deveria estar sendo amplamente discutido como fonte de sustentabilidade na saúde é que a qualidade de vida de uma população, seja no presente ou no futuro, é fortemente influenciada pela existência de bons serviços médicos. Bons serviços médicos, entretanto, somente se constroem com profissionais de saúde de qualidade, que saibam fazer o diagnóstico correto e a intervenção na hora certa, utilizando os melhores e mais racionais recursos existentes. Isso faz toda a diferença do mundo para a população, e para a redução do desperdício e otimização dos recursos existentes.

É consenso que se joga fora muito do pouco dinheiro existente na saúde, devido às práticas médicas impróprias como consequência da baixa qualificação de nossos profissionais. Se estamos preocupados com o futuro do sistema de saúde brasileiro – seja público ou privado suplementar –, temos que fazer um gigantesco esforço PERMANENTE de capacitação e treinamento de nossos profissionais.

Se melhorarmos acentuadamente a qualificação de nossos profissionais, nossas preocupações com o financiamento do sistema de saúde brasileiro estarão muito reduzidas quando o envelhecimento chegar para toda a população.

Se queremos dar sustentabilidade econômica ao sistema de saúde público e privado, o primeiro passo deveria ser investir em pessoas. Este deveria ser o principal esforço de toda a cadeia produtiva da saúde, incluindo a indústria de insumos, os planos de saúde e as entidades de representação setorial.

Pouco adiantará o aumento do financiamento – seja no público ou privado –, um esforço de melhorar a gestão ou rever os processos operacionais se não tivermos pessoas de boa qualidade para executarem o que planejarmos e necessitarmos na saúde.

Será absolutamente inútil aumentar as reservas financeiras para custear uma assistência médica ao envelhecimento, baseada em práticas assistenciais de eficiência e eficácia duvidosa. O futuro da saúde brasileira é hoje. Investir em qualificação de pessoas é a única saída possível para o passado que nos condena ao atraso e a iniquidade.

*Josier Marques Vilar é médico, presidente do Conselho Empresarial de Medicina e Saúde da ACRIO, vice-presidente do SINDHRio e diretor-geral da Berkeley

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